Com profundo pesar, respeito e imensa gratidão, a comunidade homeopática brasileira presta sua homenagem póstuma à Madel Therezinha Luz, cuja partida recente deixa uma lacuna intelectual, ética e afetiva difícil de dimensionar no campo da homeopatia, da saúde coletiva, das ciências sociais e das práticas de cuidado no Brasil.
A trajetória de Madel Luz foi marcada por uma combinação rara de rigor acadêmico, coragem intelectual e compromisso político. Ao longo de décadas, construiu uma obra consistente e inovadora que desafiou reducionismos e abriu caminhos para a compreensão da saúde como fenômeno complexo, histórico e plural. Em um cenário frequentemente hostil às diferenças epistemológicas, Madel foi voz firme na defesa da legitimidade de outras racionalidades médicas, entre elas a homeopatia, reconhecida por ela como sistema médico dotado de coerência interna, historicidade e sentido próprio.
Seus trabalhos — como Natural, racional, social: razão médica e racionalidade científica moderna, A arte de curar versus a ciência das doenças: história social da homeopatia no brasil e Racionalidades médicas e práticas integrativas em saúde, dentre diversos outros — tornaram-se referências incontornáveis para todos aqueles que buscavam compreender criticamente os limites do paradigma biomédico e afirmar a possibilidade de um diálogo qualificado entre diferentes tradições de cuidado. Com precisão teórica e sensibilidade sociológica, Madel mostrou que categorias como corpo, saúde, doença, terapêutica e eficácia não são neutras nem universais, mas atravessadas por valores, culturas historicidade e projetos de sociedade. Esse aporte foi fundamental para que a homeopatia pudesse ser discutida no espaço acadêmico e institucional com densidade conceitual e legitimidade científica ampliada.
Sua contribuição ultrapassou os muros da universidade. A professora Madel Luz teve papel decisivo nos debates que sustentaram a formulação e a consolidação da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PNPICS), defendendo, com firmeza e coerência, o direito da população brasileira ao acesso a diferentes formas de cuidado no âmbito do Sistema Único de Saúde. Sua militância intelectual sempre esteve ancorada em valores democráticos, no pluralismo epistemológico e na centralidade do sujeito no processo de cuidado.
Para a comunidade homeopática, Madel Luz foi mais do que uma intelectual aliada: foi uma presença ética que ofereceu fundamentos quando havia silêncio, conceitos quando predominava a desqualificação e horizontes quando o debate parecia interditado. Sua escuta generosa, sua alegria, sua escrita precisa e sua postura pública coerente e firme marcaram gerações de pesquisadores, profissionais e estudantes.
Neste momento de despedida, registramos não apenas a dor de sua ausência, mas, sobretudo, a força de seu legado. A obra de Madel Therezinha Luz permanece viva, orientando reflexões, práticas e políticas que afirmam a homeopatia e outras racionalidades médicas como parte essencial de um projeto de saúde mais humano, plural e comprometido com a vida.
Receba, querida professora Madel, nossa eterna gratidão, admiração e carinho.
Com respeito e saudade,
Comunidade Homeopática Brasileira
03 de fevereiro de 2026