Devemos enxergar o enorme esforço de seu resgate. Parece claro que os rastros deixados pela história médica pelo qual se pautou como ponto de partida tornaram-se suas principais diretrizes epistemológicas. Hahnemann captura idéias que não foram conservadas da tradição médica, visando reincorpora-las. Quando finalmente se define por um método testa-o. Mas certifica-se que não serão os habituais extravios metodológicos condenados pelos aforismos do Novum Organum. Renega também a comuníssima aquisição do conhecimento através da aplicação de fármacos aos enfermos (ab uso in morbis). Seu interesse desloca-se para uma outra matriz de pesquisa. Mas onde ela está? Aparentemente no estudo dos efeitos dos envenenamentos e intoxicações acidentais sobre os sãos.

O ano de 1796 foi decisivo em sua trajetória. Depois de vários ensaios menores, publicados no mesmo jornal de Hufeland, H. redige um trabalho que levará um título bastante ambicioso. Ali afirmava ter descoberto nada menos do que “um novo princípio para se averiguar o poder medicinal das drogas”. Porém, como pôde anunciar uma novidade quando muito antes, como ele mesmo evocou da historiografia médica, já se havia enxergado e aplicado o principio dos semelhantes? A analogia e as simpatias estavam assinaladas como solos comuns das construções discursivas da similitude.[1] Tratava-se de antiqüíssimos recursos, velhos conhecidos da arte curativa. Como então afirma que ele induziu o nascimento de um novo sistema de compreensão médica quando o médico medieval Rhazes e outro famoso erudito da ilustração, Von Haller, já admitiam a necessidade de trazer para a medicina o experimento sobre os sãos?

Que abuso de fontes auto-referentes estaria ele promovendo quando afirmava, ser ao mesmo tempo agente e testemunha, vale dizer, o principal protagonista de uma revolução anunciada?

Há aqui talvez uma daquelas lógicas das descobertas cientificas que, como Khun admite, são motivacionais, psicológicas, portanto cruciais. Ao final do século XVIII encontraríamos Hahnemann extremamente descontente. Alimentava um profundo ceticismo frente à ineficácia que contemplava. Desconfia de sua prática negando os sucessos terapêuticos promulgados pelos seus pares. Parece não admitir que a revolução científica realmente tivesse se instalado na terapêutica. Rebela-se também contra o comodismo das repetições dogmáticas das cátedras. Fortuitamente vasculha na caixa de pandora da medicina. Sua curiosidade gerou um significativo desarranjo em suas certezas médicas. Com arrojo intelectual e intuição determinada, relativiza tudo. Hahnemann não é mais um cético: já é um iconoclasta.

O sujeito de Meissen ousa pensar. Trata-se de uma verdadeira metáfora obsedante, o leit motiv que assola determinados sujeitos em certas unidades temporais. Sua ruptura decorre de uma inspiração racional, insuflada por uma curiosidade científica que lhe confirma o propósito de reexperimentar metodicamente e a assunção de que ele deve expor suas hipóteses aos testes empíricos. Testes que, para seu próprio espanto, são provisoriamente sancionados.

O problema das identidades e influências: hipocratismos, animismos e vitalismos.

Muito se discutiu sobre as fontes hahnemannianas e é verdade que graças a isto temos avançamos na compreensão das bases sobre as quais ele termina configurando o método homeopático. Há muito ainda por se estudar. Optamos pela redução de nossa abordagem `as influências que, em nossa opinião, foram  as mais consistentes e originais. A primeira a ser destacada é o da obra hipocrática. Não pairam dúvidas de que esta influência é notável além de muitas vezes explicitada por Hahnemann.[2]

Impossível duvidar do fascínio que os escritos hipocráticos genuínos exerciam sobre ele. A sobriedade na descrição dos fenômenos, sua capacidade de perscrutar e de revelar sem buscar explicar o que desconhecia estavam entre suas principais virtudes. Como se sabe, o médico hipocrático deveria ser, antes de qualquer coisa, um physiológos, ou seja, alguém que é capaz de falar acertadamente da natureza. Aliás, a suprema virtude dos médicos gregos era o estabelecimento de observações prognósticas precisas. Ou, nesta impossibilidade, nada afirmar sobre elas. [3]

Muitos autores apontaram para as coincidências entre as posições médicas de Hahnemann e Hipócrates calculando que se tratava de mais uma reativação da sabedoria grega.[4] Como sabemos, o hipocratismo funda simplesmente a história clínica em medicina. Cada caso deve ser visto em sua particularidade e cada individualidade deve ser examinada na multiplicidade das reações possíveis.[5] Hahnemann reconhece na tradição de Cós uma racionalidade médica menos invasiva, natural e racional, portanto melhor. Sabe dos limites terapêuticos do hipocratismo, destarte, reconhece-lhe as virtudes prognósticas e diagnósticas, afinal Hipócrates foi quem introduziu o estudo do caso por comparação através das anamneses.

Para a medicina hipocrática que aplicava o conceito aristotélico de individualização, o importante era discernir as várias patologias dentro da variabilidade dos perfis individuais. Suas finalidades: diagnosticar e prognosticar melhor. Para Hahnemann, prenunciando o germe de suas rupturas ulteriores, começam a se destacar também as particularidades dos eventos biográficos/patográficos do sujeito, com finalidade eminentemente terapêutica.

Mais de um autor tentou estabelecer o paralelismo entre Hahnemann e as obras de autores de distintas épocas e tendências como, por exemplo, Paracelso, Von Haller, Claude Bernard, Pavlov e Freud. Existe a possibilidade de fundamentação de todas estas influências e inspirações, mas neste estudo tomaremos outra direção. Outros halos de influência precisam ser expostos.

Cronologicamente convém assinalar alguns grandes adventos anteriores que imprimiram suas marcas na história da medicina. Iniciaremos com as descobertas de Vesalius fundando a moderna anatomia e estabelecendo a correlação entre forma e função anatômicas. Claro que a ruptura criada por Paracelso e seus desdobramentos na terapêutica não podem ser negligenciados em qualquer estudo homeopático sério. Nem tampouco a empirismo sistemático de Sydenham, de evidente inspiração hipocrática. Ou ainda as perspectivas de uma anatomia animada introduzidas por Von Haller quando induz os primeiros estudos fisiológicos consistentes em direção a superação da patologia de base humoral, prolongada herança do galenismo.  Sem falar das enormes repercussões sobre toda a medicina do século XVIII das pesquisas de Morgagni quando correlacionou experimentalmente — em autópsias sistemáticas — história clínica e lesão anatômica demonstrando a correspondência quase linear entre as queixas e o substrato morfológico da patologia.