INFORME OFICIAL DA AMHB – DIRIGIDO AOS MÉDICOS HOMEOPATAS SOBRE A COVID-19.

A AMHB vem oficialmente esclarecer aos colegas homeopatas o entendimento que devemos ter na abordagem da pandemia do Covid-19, para uma uniformidade de condutas e ações, acreditando que possamos de fato contribuir com a terapêutica homeopática, que historicamente se impôs no mundo durante grandes epidemias.

Inicialmente, vamos rever nossas fontes na origem, relembrando o “modus operandi “ de Hahnemann nas epidemias que ele atuou:

Durante a epidemia de Escarlatina, detalhadamente descrita em seus sintomas e sinais, incluindo o raciocínio que o levou a usar Belladonna como o profilático naquela epidemia (HAHNEMANN, DUDGEON págs. 359-361, 2006):

“O remédio capaz de manter a saúde sem ser infectada pelo miasma da escarlatina fui feliz o bastante de descobrir. Percebi também que o mesmo remédio dado no momento em que os sintomas indicados da invasão da doença ocorrem, abafa a febre já em sua origem; e além disso, é mais eficaz do que outros medicamentos conhecidos em remover a maior parte dos transtornos posteriores que se seguem à escarlatina que seguiu o seu curso natural, os quais são amiúde piores que a doença em si. Raciocinei assim: um remédio, que é capaz de rapidamente bloquear uma doença em seus primórdios, deve ser o seu melhor preventivo. (…) E um número de outras oportunidades apresentaram-se para mim em que esse remédio preventivo específico jamais falhou.”

Por outro lado, quando o paciente se apresentava a ele depois da fase inicial da Escarlatina, Hahnemann observava duas manifestações da doença com tratamentos diferentes: 1) calor queimante, estupefação sonolenta, agitação agonizante de um lado a outro com vômitos, diarreia, e mesmo convulsões, tratada com Opium; 2) febre ao anoitecer, insônia, perda total de apetite, náuseas, rabugice lacrimosa intolerável, gemido, ou seja, um estado que o Opium era contraindicado, sendo prescrito Ipecacuana. Também, em alguns casos particulares, quando o médico foi procurado muito tarde para o tratamento, ele observava ulceração na pele ou tosse sufocante e prescrevia Chamomilla.  Além do tratamento medicamentoso, ele dava o seguinte conselho para nós médicos: devemos tentar dispersar todo medo por meio de palavras doces e alegres, de delicados presentinhos, sustentando as esperanças de rápida recuperação.

Na Cólera Asiática em 1831, na orientação que Hahnemann deu, salienta que no primeiro estágio da doença deveria ser prescrito Camphora, mas no segundo estágio deveria ser mudado o medicamento rapidamente para Cuprum ou Veratrum album. Recomendava também Cuprum como medicamento profilático.  (HAHNEMANN, DUDGEON págs. 717-720, 2006).

Sabemos que em enfermidades agudas e epidêmicas, frequentemente aparecem fases distintas, uma inicial, uma com todo seu corolário sintomático e uma residual quando persistem alguns sintomas. Em boa parte das vezes, para cada uma dessas fases temos um ou mais medicamentos homeopáticos mais indicados, de acordo com os sintomas característicos. No caso das epidemias, além disso, cada uma, em diferentes épocas, mesmo sendo causada pelo mesmo agente etiológico e numa mesma população, a medicação do gênero epidêmico é diferente (NUNES, 2016).

O sucesso do tratamento homeopático no manejo das epidemias se dá pelo respeito das premissas clássicas já descritas por Hahnemann como salientado nos parágrafos anteriores. Estudos de tratamento de conjuntivite, um com Euphrasia officinalis, escolhido baseado em epidemias anteriores, e outro estudo com Pulsatilla nigricans, baseado no gênero epidêmico daquela epidemia, observou-se, no primeiro estudo, que não houve diferença estatística significativa entre o grupo tratado com o medicamento proposto e o grupo controle com placebo. O segundo estudo foi significativamente mais eficaz do que o tratamento alopático, havendo melhora dos sintomas, em média, menor que 72 horas (TEIXEIRA, 2010). Então, como intuiu e comprovou Hahnemann, o medicamento profilático de qualquer epidemia seria o medicamento do gênero epidêmico da fase inicial da doença, pois assim, por similitude, se aniquila os sintomas iniciais da doença e aborta sua evolução. Desta forma, indicar medicamentos da fase de estado completo da doença como profilático talvez não teria eficácia.

Vamos agora nos ater ao Covid-19:

Quando começaram a falar da epidemia na China já apareceram propostas de tratamento, ainda que os homeopatas indianos, gregos e de outros países tenham se baseado em sintomas de epidemia anterior de SARS – erro de premissa básica, pois ainda não tinham atendido pacientes acometidos pelo Coronavírus.

A circulação pelas redes sociais de fórmulas homeopáticas antes de se confirmar o primeiro caso da doença no Brasil, mostra claramente a inadequação de avaliação, gerando confusão e desserviço nos próprios colegas homeopatas, banalizando as possibilidades e contribuições extraordinárias que a Homeopatia certamente pode trazer.

Cerca de 80% dos pacientes tem sintomas leves. Os pacientes graves admitidos nas Unidades de Terapia Intensiva chinesas, evoluíram com hipoxemia e síndrome de desconforto respiratório entre o 9º e o 12º dia (SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA, 2020). Infelizmente os sintomas relatados nos estudos até aqui publicados são muito pouco pormenorizados e pobremente caracterizados e necessitamos ter conhecimento da sintomatologia de forma detalhada. Provavelmente a dificuldade será esta, porque depois que a epidemia estiver francamente instalada, dificilmente teremos o diagnóstico etiológico definido, especialmente para os casos brandos, pois não haverá como fazer o exame laboratorial para todos. Estamos observando um surto de resfriado comum e até Influenza nas últimas 3 semanas, que vão se misturar aos pacientes com Covid-19.

Sendo assim, o consenso obtido no Conselho das Entidades Formadoras da AMHB é de trabalhar em conjunto, através das seguintes estratégias visando a obtenção e melhor detalhamento dos sintomas comuns da Covid-19:

  • Levantamento dos prontuários dos serviços ambulatoriais e hospitalares onde estão sendo diagnosticados os casos e coleta de dados através do contato direto com esses pacientes.
  • Contato e intercâmbio de informações com colegas homeopatas dos países onde a epidemia já está circulando há mais tempo, em especial, nos países do continente Europeu.
  • Descrição pormenorizada dos casos clínicos confirmados atendidos por homeopatas, com o objetivo de montar um banco de dados de sintomas desta epidemia. Neste caso, consideramos muito importante a colaboração de todos colegas homeopatas.

Qualquer ato especulativo tem risco maior de não ser efetivo no combate dessa epidemia e nos levar ao descrédito. Estamos trabalhando intensamente nos próximos dias em torno de nossa contribuição para minimizar esta situação, embasados na literatura homeopática disponível, utilizando-se do modelo de experiências exitosas em epidemias do passado, bem como com as estratégias de abordagem descritas por Hahnemann, ainda tão atuais. Assim que tivermos os primeiros resultados, divulgaremos amplamente as conclusões sobre os medicamentos mais adequados para o momento.

 

Referências: